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A Máquina

A partir daquele sonho tudo mudou. Foi naquela noite que o menino se perdeu. Perdeu-se no pior dos lugares: em si mesmo. A partir daquela visão, a visão turvou, o mundo mudou, e o menino morreu. Parado na varanda, ele olha ao longe e por um milésimo de segundo, lembra quem fora. Mas, de repente, tudo muda e no lugar das emoções surgem as ações. Já não há mais menino. Há agora uma máquina solitária que, com as bochechas sujas de fuligem, percorre os caminhos como quem tem pressa.

Com andar célere e atitudes extremadas, a máquina é percebida, mas não é vista. Como se fosse apenas parte de uma natureza morta e despida de emoções, a máquina cumpre suas tarefas e, por isso, não é importunada. Ao final do dia, pode ir para seu depósito onde carregará as energias. Por vezes, a máquina retoma o dia seguinte com a bateria pela metade. Algum curto circuito durante a noite deve ter impedido o descanso da guerreira. Com as pestanas baixas no dia seguinte, ela poderia ser o desenho da bravura, mas não é porque não é vista.

No único dia de inatividade que a máquina tem, ela observa o mundo. Observa aqueles que os outros dizem ser sua família. Alguns ao observar o cenário, chorariam. A máquina não. Enquanto um irmão brinca de barquinho ao longo do jardim, a outra se diverte por horas a contar os lucros da brincadeira de lojinha. O pai, orgulhoso, felicita os adultos que ainda são crianças. Ou seriam crianças que já viraram adultos? A máquina não quer conhecer a resposta. Quase nada se aplica a ela. Em um mundo cheio de regras, ela é, por vezes, a exceção.

Outro dia, encontrei com ela e conversamos por horas a fio. Tentei entender as opções que ela tinha feita na vida. Busquei explicações para dores profundas e, enquanto ouvia, a máquina ia me relatando tudo com os olhos fixos no horizonte. Por vezes, percebi que os olhos pareciam marejar. E, nessa hora, ela os fixava mais ainda. Parecia prender a respiração e, intrépida, não desistia. Fiquei surpreso ao ouvi-la dizer que não conseguia mais acreditar na felicidade e que a esperança era apenas uma forma de facilitar a realidade. Entre uma frase e outra, a máquina sorria. Um dos mais belos sorrisos que eu já havia visto. Era o sorriso de um menino levado. Enquanto ela falava, minha visão se turvava e, entre uma piscada e outra, eu via no lugar da máquina um menino. Nessa hora, eu chorei. A máquina, perspicaz, pousou sua mão fria no meu ombro e, sem piscar, falou Não chore! Eu sou o que me fizeram; sou o que eu devo ser.

Com a voz inalterada e as emoções esvaziadas, a máquina contou-me sua história. Falou da infância, da adolescência e do início da fase adulta quando ainda era alguém. Aquilo tudo parecia tão normal, tão banal pra ela que eu fiquei chocado. Extasiado, meu raciocínio já nem processava mais as informações. E talvez tenha sido em um momento de devaneio que vi, no lugar da máquina, uma criança branca com as bochechas sujas de poeira. O único lugar limpo no rosto era um caminho pelo qual desciam lágrimas correntes. Enquanto falava e gesticulava como quem pede socorro, a criança chorava. Tentando observar o cenário ao meu redor como para constatar a realidade onde estava inserido, eu só vi escuridão. E nesse instante, algo mais forte começou a me puxar pra trás. Cada vez mais, eu me distanciava daquele menino que gritava e chorava se debatendo à procura de algo que eu ainda não sabia o que era. Comecei a me debater também e fui jogado ao chão. Acordei com uma mão fria nos meus cabelos. E tomei mais um susto ao ver que ali estava a máquina. Ela agora cantava uma música como para que me acalmar. Recobrei a consciência e tomei a mão dela na minha. Como um animal arisco, a máquina puxou-a imediatamente e saiu em alta velocidade deslizando suas esteiras pelo mármore frio.

Corri atrás, mas em vão. E essa foi a última vez que vi o menino-máquina. Fora as lembranças que ainda tenho dele, guardo algo muito especial que colhi no dia da nossa última conversa. Depois de correr muito atrás dele, voltei ao local onde estávamos para pegar meus pertences e me deparei com uma linda rosa no chão, no lugar onde a máquina estava. Imediatamente, percebi tudo. As lágrimas que saíram dos olhos do menino (e agora, eu tinha certeza de que era mesmo uma criança) foram o suficiente para fazer nascer uma linda rosa. Procurei entender como daquele mundo preto e branco havia surgido uma rosa tão singular.

Até hoje busco as respostas. Por várias vezes, acordo no meio da noite apavorado e me lembro do menino-máquina. Lembro a sua infelicidade; a sua solidão; o seu olhar terno, mas, principalmente, o seu sorriso. Então, recordo as palavras dele: as pessoas me veem, mas não me enxergam.

Gostaria de tê-lo ajudado. Gostaria de poder entregá-lo a rosa, fruto do seu próprio sofrimento. Ainda hoje busco por ele. Alguns dizem que morreu; outros, que ele foi embora do país. Um jornalista me contou que, na verdade, ele não agüentou a pressão e ingeriu comprimidos pra dormir, estado esse que se encontra até hoje. Há ainda aqueles que dizem que a máquina, um dia, se rebelou contra tudo e todos e terminou sendo trancafiada no pior dos lugares: em si mesma. Essa é a versão em que mais acredito.

Andando mundo afora, ainda tenho esperança de encontrá-la… Sei que, em algum lugar, as lágrimas dela, transformadas em rosas, colorem o mundo. E sem saber, a máquina cumpre sua missão…

O Trapezista

, mas tudo está tão difícil, né?!

O show está no meio, e o trapezista está aí, na corda bamba. Do lugar que estou posso ver o público olhando à distância. Unhas roídas, corações a palpitar. Olhos secos, outros molhados. A grande ansiedade é saber qual será o próximo passo. Para o artista que luta por se equilibrar, apenas uma certeza. Se errar, tudo estará terminado. Alívio ou não? Apenas o artista sabe.

Imagino o que se passa na cabeça do artista e arrisco palpites. Lá em cima, as emoções se avolumam, e o artista não pode desistir. Ou pode?

Enquanto ele caminha pé ante pé, alguns saem da platéia em desespero e correm. Gritam e acenam. Mas o artista sabe que não pode se distrair. Desviar a atenção seria um grave erro. Há quem grite e peça para que ele se jogue e ainda promete ampará-lo. Há ainda quem diga que o artista, nas alturas, está fugindo. Há ainda quem vibre com o perigo que o artista, lá em cima, corre. As emoções chegam ao ápice. No canto do olho, as lágrimas se formam. E agora, fazer o quê? Engavetar-se como um projeto qualquer que nem sequer foi lido e analisado? Pedir desculpas? Pelo quê? Pelos sonhos frustrados? Pela revolta pungente e dominante? Pelo medo de um futuro incerto? É preciso decidir. Ou não. Não decidir é, por si só, uma decisão. Para o trapezista, muita coisa já acabou, sem nem mesmo ter começado. Outras ainda virão. Como lidar? Não se sabe. Por hora, usando da redundância, é preciso precisar exatamente o ponto em que se está. E ver o que se quer. Dar fim a tudo, recomeçar ou simplesmente começar.

E enquanto as emoções se avolumam, o artista prende a respiração, abre um largo sorriso e dá uma cambalhota. Gritos. Choro. Sorrisos. Aplausos. Suspiros. Lágrimas. Angústia e alívio. Muito se perderá nesse momento. Mas, é assim mesmo. A cada instante, algo se perde. Um pouco da alegria, um pouco da juventude, alguns fios de cabelo, a beleza…e por aí vai. A tristeza, o rancor e o ardor também se perdem nesse caminho. E a gente mesmo se perde nesses meandros da vida.

Nas alturas, como se o tempo parasse, a cambalhota inconclusa se desenrola. Unhas roídas, olhos molhados. Sorrisos no canto da boca. Triunfo e fracasso. Pronto! Pronto.

Minutos depois, o ambiente vazio é um relicário do que aconteceu.

 

 

NO TREM…

Encontros e desencontros. Há mais de meia década, pessoas vêm e vão com um só objetivo, o destino final. A cada embarque, histórias começam a ser construídas enquanto outras se concluem a cada desembarque. Assim, é o trem de Caucaia que transporta, por dia, uma quantidade de pessoas que, por vezes, só tem ele como alternativa de transporte. Mas muito mais que apenas um meio de locomoção, o trem é cenário perfeito para histórias de amor, ódio e, principalmente, encontros e desencontros.

 

Da estação João Felipe, no centro de Fortaleza, saem trens com destinos diferentes. Um vai até Maracanaú. O outro, até Caucaia, a 16,5 km de Fortaleza. Logo na partida da capital, pessoas apressadas chegam do município vizinho. A maioria delas vem a trabalho. É a partir desse corre-corre e desses trilhos finitos de histórias que começa a nossa viagem. Estamos separados do nosso destino por 9 paradas distribuídas ao longo da periferia de Fortaleza.

 

Após a compra do bilhete pelo valor simbólico de 1 real, a autorização para adentrar nesse mundo de muitas histórias. Ainda na parada, um grupo de pessoas conversa distraidamente. Quem vê de longe, julga serem amigos de longas datas. Mas aqui, qualquer julgamento é perigoso. As histórias do trem enganam e confundem. Aquele grupo que há pouco conversava não passava de pessoas impacientes que se encontraram pela primeira vez à espera do trem que não costuma atrasar.

 

Às 8h20, o trem chega. Embarco disposto a viajar por essa rota cheia de surpresas e mitos. Logo na saída, um solavanco de tirar o fôlego assusta. Hora de partir. As portas que deveriam ser fechadas permanecem abertas. Alguém apertou o botão de emergência e até o destino final, iremos assim mesmo. Recebendo vento no rosto e correndo o risco de levar uma pedrada daqueles que estão ao longo dos trilhos. Se isso é mito ou não, a grande verdade é que naquele dia, a viajem foi bastante tranqüila.

 

Durante o percurso, muitas pessoas. Um vendedor de sabonetes de aroeira que vem com a promessa de transformar “mulher” em virgem; uma mãe com crianças; o bêbado que não sabe o que é estar sóbrio há meses e o Seu Matias, um senhor de 88 anos, do qual resolvi me aproximar. Desde 1928, o simpático senhor anda no trem. Foi lá que conheceu a esposa. Hoje, já viúvo continua fazendo o percurso que dura quase 1 hora e meia. Após longa conversa, o trem pára na estação de Caucaia. Gente desce, gente sobe. Algumas histórias terminam aqui. Outras começam. Com um aceno, Seu Matias se despede e se vai. Com um chacoalhar quase incômodo, o trem recomeça a viagem. Fortaleza nos espera.

 

É o fim da nossa viagem. O começo de mais uma. Outras virão. A rotina do trem é a mesma e não pára. No caminho, muito mais que uma simples viagem. Paisagens bucólicas, olhares distantes e histórias que se perdem ao longo dos trilhos não capinados.

 

As novas tecnologias estão aí para facilitar a vida do ser humano. Veio prometendo mais tempo livre ao homem e, na verdade, acabou por escravizá-lo. Dentro desse rol de novas tecnologias, está a internet com todas suas características peculiares. E nesse cenário surgem os blogs.

 

Blogs são diários pessoais escritos via internet. Escritos por profissionais ou pessoas comuns, os diários online contam histórias, mostram imagens, relatam fatos etc. Atualmente, qualquer um pode ter um blog devido ao fácil acesso à internet. Trocando em miúdos, os blogs são páginas atualizadas, na grande maioria das vezes, diariamente onde pessoas comuns como eu e você escrevem o que querem e permitem que qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo tenha acesso ao conteúdo.

 

No universo dos blogs, muitas são as características próprias deles. Uma delas é que, geralmente, um blog tem a “cara” do autor. Isso é devido aquilo que se chama customização, ou seja, personalização. O “blogueiro” modifica e transforma a página de forma a deixá-la o mais parecida possível com ele. Isso também é possível devido à interatividade que a internet cria entre usuário e máquina. Através dessa customização, também chamada de dirigibilidade, é possível que o site seja direcionado a um público bastante específico.

 

Sempre que se fala em blogs, a primeira idéia que costuma vir à cabeça são sites construídos com uma linguagem informal e conteúdo descartável. A grande verdade é que a maioria dos blogs é assim mesmo. Como eles são diários pessoais, quem os faz costuma ter pequena preocupação com o que escreve. E esquece que o mesmo será visto por uma infinidade de pessoas. Cabe, nesse momento, convocar os blogueiros para que escrevam com maior cuidado e respeito à língua portuguesa. Os blogs são uma ótima idéia e ajudam a criar e manter relações entre gentes. Por isso, merecem maior atenção e cuidado por parte de quem os faz.

 

Da mesma forma que existem os blogs com muito lixo eletrônico, existem também aqueles que têm muita coisa boa como já dito anteriormente em matéria postada neste blog. As novas tecnologias estão aí. A internet também. Cabe a nós, usuários, escolhermos o que queremos ver. Ou seja, está tudo exposto aos nossos olhos, mas a escolha do queremos ver é apenas nossa.

 

 

E o país parou, nesta terça feira, de manhã. Parou para acompanhar de perto o jogo de futebol entre Brasil e Argentina. O bom e velho clássico onde, quem ganhasse, teria a chance de disputar o tão sonhado ouro olímpico.

 

Já, antes do jogo, milhões de telespectadores encontraram brechas nas agendas de compromissos para ficarem diante da tevê apenas esperando o momento de começar a partida. Às 10 horas, o jogo começou. O Brasil estava parado como não fazia desde a copa de 2006 onde o sonho do hexa escapou pela tangente. O sabor da vitória era sentido por antecipação por cada brasileiro atento.

 

Poucos minutos após o início da partida, e os brasileiros já estávamos parados não mais de ansiedade, mas de pura estupefação diante de um time que parecia estar fadado a perder. Veio o primeiro gol, o segundo e o terceiro. O grande problema é que todos os três gols foram da Argentina. E o esperançoso Brasil ficou a ver navios. Justo no esporte mais difundido no país, perdemos feio e, pior, para a maior rival.

 

- Conseguimos a vitória e a desfrutamos o máximo. Cumprimos o nosso primeiro objetivo agora, mas falta um passo a mais – diz o jogador argentino Riquelme, que enfrenta, no próximo jogo, o time da Nigéria.

 

No Estádio dos Trabalhadores em Pequim, o Brasil completou uma série de erros olímpicos que resultam em uma colocação vergonhosa. O país está no 38ͦ lugar no quadro de medalhas, atrás de países como Cazaquistão e Azerbaijão. Enquanto os brasileiros choram a derrota, os argentinos comemoram.

 

- Nós merecíamos algo assim, é uma vitória para toda a Argentina. Um 3 a 0 no Brasil nos deixa muito contentes. Vencemos como todos gostam, por isso estamos contentes e orgulhosos. Havíamos dito que em outras ocasiões fomos para cima do Brasil e pagamos caro. Desta vez, trabalhamos muito em cima do que aconteceu e, sem nos desesperarmos, fomos atrás do resultado – explica Agüero, genro de Maradona e autor de 2 gols na partida.

 

A partida acabou perto do meio-dia, e o país continuava parado. Só que, naquele momento, de indignação. Humilhados pelo time da Argentina em uma partida que valia sonhar pelo ouro olímpico, agora, os brasileiros pedem mudanças nas próximas partidas que valem como eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010. O técnico Dunga que se cuide.

Para os atletas de vela, aprender a lidar com o vento é a primeira lição. É preciso conhecê-lo antes mesmo de se entrar no barco. Desvendar os mistérios da natureza e suas variáveis é indispensável para quem tem o vento como o principal elemento no momento de uma competição. As chances de sucesso dependem diretamente da intimidade do atleta com a natureza.

  

- Você deve ter percepção, conhecimento e experiência. Numa mesma regata, seu barco pode ir rápido e, depois, mais lento dependendo das condições – diz Torben Grael, o maior medalhista brasileiro de vela, com dois ouros olímpicos.

 

Quem compete no esporte de vela, sabe que treinos na água exigem horas diárias. Quanto mais tempo em contato com a natureza, mais fácil fica lidar com as forças naturais. Com o passar do tempo e muita observação durante os treinos, os atletas tornam-se “previsores do tempo”, mas sabem que, muitas vezes, irão se deparar com surpresas nem sempre agradáveis.

 

- Com a experiência, você aprende a farejar o vento. Tinha um técnico meu que falava que o vento é invisível, mas acaba se tornando previsível – explica Ricardo Winicki, o Bimba, classificado para as Olimpíadas de Pequim na classe RS:X.

 

Nos esportes de vela, ser um aliado do vento faz a diferença. O ateleta que melhor se adapta às condições da prova tem maiores chances de bons resultados. Enquanto para uns a incerteza dos ventos pode ser uma dor de cabeça, para a grande maioria dos atletas de vela, isso quebra a rotina e traz mais emoção. Um composto de sucesso e adrenalina que tem, no vento, o grande aliado.

 

- É um desafio a mais. O meu treino nunca é o mesmo. Não tem como prever o que irá acontecer. Isso é o que permite uma vida mais longa no esporte – ressalta Bimba.